CATARINA EUFÉMIA
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen
O primeiro tema da reflexão grega
é a justiça
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente
Pois não deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método obíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método obíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos
Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguém não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro
Porque eras a mulher e não somente a fêmea
Eras a inocência frontal que não recua
Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste
E a busca da justiça continua
Em que era preciso que alguém não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro
Porque eras a mulher e não somente a fêmea
Eras a inocência frontal que não recua
Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste
E a busca da justiça continua

(...) E o tempo em que vivemos é o tempo de uma profunda tomada de consciência. (...) Não aceitamos a fatalidade do mal. Como Antígona, a poesia do nosso tempo diz: “Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres.” (...)
ResponderEliminarDiscurso de Sophia em Julho de 1964, na entrega do Grande Prémio de Poesia, atribuído a “Livro Sexto”